
Pode não parecer, mas este post é sobre jornalismo investigativo. Ou pretende ser.
No verão de 2008, estava na sucursal de praia do Correio do Povo quando uma mensagem anônima chegou no celular do jornal, divulgado todos os dias na página de verão. Dizia que um micro-ônibus da Prefeitura de São Sebastião do Caí (RS) estava levando veranistas até a praia. Tudo com dinheiro público.
A denúncia ainda dava o endereço, na praia de Santa Terezinha, em Imbé. Estávamos a menos de 10 km de lá. Foi difícil convencer o fotógrafo Diego Vara, o motorista Sérgio Negrini e o repórter Samuel Vettori, da Rádio Guaíba, a abandonarem o futebol de sábado à tarde e a piscina do hotel para me ajudar a conferir se a história era real.
Eu, por outro lado, estava excitado com a história. “Veículo da prefeitura leva prefeito e família à praia”, “Denúncia exclusiva: farra com o dinheiro público”, eu já imaginava na manchete do dia seguinte.
Depois de uma certa insistência, fomos ao tal endereço. Não havia ônibus algum. Por telefone, o informante contou que o micro-ônibus tinha acabado de sair. No dia seguinte, um domingo, a fonte volta a ligar: “O micro-ônibus está aqui agora. Estão se preparando para sair de novo, são umas 15 pessoas”.
Corremos para lá com o carro da reportagem. Para chamar menos a atenção, fomos apenas no carro do jornal, embandeirado. Ou seja, com a identificação completa de “Reportagem”. O carro da rádio ficou no hotel. Tentamos avisar a TV Record, também do grupo, mas não conseguimos.
O micro-ônibus
Agora, de fato, o micro-ônibus estava lá, estacionado em frente a uma casa localizada a umas seis quadras do mar. Éramos cinco no carro. Além dos já citados, estava no carro mais o motorista Tiago Belinski, da Rádio Guaíba. Foi só para acompanhar.
Aqui cabe um adendo: adorávamos pegar no pé no Tiago, que dizia que estava rodando mais de 500 km por dia na praia em busca de notícia. Nós, do Correio do povo, rodávamos um terço disso, o que dava margem para comentários do tipo: “Tiago, duas voltas ao mundo no verão gaúcho” ou algo do tipo. Fecha o adendo.
Ao se aproximar do micro-ônibus, não queríamos ser reconhecidos como jornalistas. Sentado no banco traseiro, o Tiago, por sua vez, estava elétrico e não deixava o braço direito dentro do carro. Daí pedi a ele: “Bota esse braço pra dentro, cara. Vão nos identificar!”. Bastou para gargalhadas tomarem conta do carro. E o Negrini completou: “O carro tá todo embandeirado, mas o braço é que vai nos denunciar”. Mais risadas.
O clima era de descontração total, mas eu estava nervoso. Parecia que ninguém estava levando a sério a denúncia. Mas não é que, mesmo sem carro discreto disponível, a coisa deu certo. De longe, o fotógrafo Diego Vara conseguiu fazer imagens de umas dez pessoas entrando no veículo da Secretaria de Educação com roupas de banho e camisas de futebol.
Seguimos o veículo até as areias de Tramandaí, a uns 15 km de distância. Lá, o grupo desembarcou. Eram jogadores de São Sebastião do Caí que representariam o município no Bolamar, a mais famosa competição de futebol de areia do litoral gaúcho. A prefeitura estava cedendo o transporte. No local, havia mais uma van.
Por telefone, uma fonte do Ministério Público confirmou que a prática era ilegal, apesar de ser comum em qualquer cidade. Ainda mais em ano eleitoral. Bastou para comprovar a denúncia. Naquele dia, o prefeito e secretária de Esporte sumiram. Ninguém queria falar sobre o transporte de jogadores para a praia. Normal.
Nada no jornal
Fiz a matéria e enviei ao jornal. No dia seguinte, nada. Nenhuma informação sobre o porquê de não terem dado. À noite, falo por telefone com o Eugenio Bortolon, responsável pela capa. Ele explica que não poderia dar sem o contraponto da prefeitura.
“Mas Eugenio, tentei ligar mais de 20 vezes, o prefeito sabe que quero falar com ele, mas ele não quer atender!”, expliquei. “Tá, guri, coloca isso no texto, que vou publicar. Vou dar assinada e amanhã tu procura eles, tá?”, disse ele. Respondi: “Nem vou precisar, amanhã eles vão me procurar”.
Dito e Feito. O jornal noticiou numa terça-feira, no alto da página 3: “Transporte de equipe é investigado”. Por volta das 12h, o então prefeito de São Sebastião do Caí, Léo Alberto Klein, me liga no celular, todo cheio de dedos, pedindo desculpas por não ter me atendido anteriormente. No oitavo ano de governo, disse que não havia nada de eleitoreiro no empréstimo, até por não poder disputar o terceiro mandato.
No dia em que saiu a matéria, o Ministério Público abriu investigação para apurar as denúncias. Posteriormente, não segui acompanhando o caso pois acabaria trocando o Correio do Povo pela Zero Hora. O processo teria sido arquivado sem punições.
FOTO: Diego Vara
Links relacionados:
Transporte de equipe é investigado (em PDF, selecionar a página 3)
MP investiga uso de veículos por prefeitura (em PDF, selecionar a página 3)
POST Nº 10