A estrela de Elis

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É dela uma das mais belas vozes que o Brasil já ouviu. Elis Regina (1945-1982) nasceu em Porto Alegre e brilhou no país inteiro. As músicas que eram ouvidas pelos meus pais na juventude ainda hoje são atuais e belas.

É o saldo de uma obra que atravessa gerações e vai permanecer. Um exemplo é a música ‘Como nossos pais’, uma das minhas preferidas (vídeo acima). Ontem, aniversário de 237 anos de Porto Alegre, ela ganhou uma estátua junto à Usina do Gasômetro e ao Guaíba.

Estive lá hoje e trago aos leitores deste blog algumas imagens. Vale a pena, claro, ver de perto.

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FOTOS: Maicon Bock

Post Nº 23

A caminhada

Naquele dia, o sono foi mais curto que o habitual. Às 6 horas da manhã, eu já caminhava sozinho em meio às ruas desprovidas de movimento, sem destino preciso. O importante era andar, em qualquer direção, como forma de distrair os pensamentos tolos que se sucediam em minha mente.

Nas vias públicas havia poucos carros, porém muitos pássaros ecoando sons ritmados e constantes. A cidade se preparava para despertar mais uma segunda-feira.

Na esquina da Avenida Oscilante com a Rua dos Cataventos, a brisa matutina tocou meu rosto levemente. Senti-me vivo. Um sentimento pleno de integração com o Universo. Parei por um minuto, fechei os olhos e fiz uma oração silenciosa pedindo tranquilidade e paz.

Inconscientemente, era uma forma de tentar deixar de lado pensamentos tolos que insistiam em me remoer. Dobrei na Rua dos Cataventos e segui caminhando até a Travessa das Dores. Parei, firmei por um instante os olhos na placa da rua, e preferi continuar meu caminho pela Rua dos Cataventos.

Mais à frente, entrei na Rua da Esfinge. Do lado esquerdo, uma uniforme sequência de antigos casarões. Do outro lado, prédios novos, cujos formatos variados e multicoloridos davam a impressão de desordem.

Para atenuar a má operação do meu cérebro, fixei-me a pensar sobre a origem do nome do local onde estava. Lembrei que na mitologia a esfinge representa um monstro fabuloso, com cabeça humana e corpo de leão, que propunha enigmas aos viajantes, devorando-os se não os decifrassem.

Às 7 horas, eu não estava mais sozinho em minha andança. Um cão preto, de focinho extenso e orelhas caídas, cuja raça desconheço, fazia-me companhia. Por meio de seus latidos e expressões corporais, o cachorro conseguia distrair-me e demonstrava carência e fome.

Na Rua da Santa Ceia, comprei um quilo de mortadela para dar ao cão. Obediente, ele permaneceu na calçada enquanto eu realizava a troca comercial. Depois de satisfeito, o animal agradeceu-me com uma lambida e se foi.

Mais uma vez só, voltei para casa, porém com ânimo renovado. Ainda foi possível tomar um banho, trocar de roupa e chegar ao trabalho sem atraso. Às 8 horas, o cartão-ponto registrava minha chegada à empresa.

Lá, enquanto sorvia o primeiro cafezinho do dia, reconstituí mentalmente cada passo da caminhada de minutos antes. Nisso, já nem lembrava dos pensamentos tolos que se sucediam em minha mente quando acordei.

(OBS.: texto publicado originalmente em 1/7/2005, no blog Distante do Mundo Real. Escrito possivelmente em um momento no mínimo nebuloso da minha existência. As únicas alterações feitas por mim são as adaptações à nova ortografia)

FOTO: Charlotte_s

Post Nº 22

Navegar é preciso – Nº 3

Com apenas 7 anos, David ganhou fama mundial ao aparecer no You Tube após receber uma anestesia para a extração de um dente. Dentro do carro, o pai gravou o filho doidão.

É realmente engraçado ver o guri perguntando se aquilo era a vida real, se ficaria daquele jeito para sempre e se atrapalhando ao contar os dedos da mão.

Apenas o vídeo original foi visto por 16 milhões de pessoas, fora as versões, como por exemplo um remix que surgiu.

O vídeo do guri ainda virou camiseta (veja a estampa acima). Claro, tem gente que decidiu ganhar grana com isso. Normal… Para quem ainda não viu, vale a pena ver. Para quem já viu, vale a pena relembrar.

(Dica do Edu Meurer, com revisão de texto do Benhur Bortolotto)

FOTO: SambaClub – Camisetas com conteúdo

‘Navegar é preciso’ é uma seção deste blog. É publicada eventualmente, quando algo estranho ou curioso é observado na rede. Sugestões pelo e-mail maiconbock@hotmail.com

Post Nº 21

Fale mal de mim

Nada incomoda mais um blogueiro que um texto que não rende comentários. E não precisa nem ser opinião a favor. No meu caso, as opiniões contrárias à minha são até mais interessantes, pois penso que – aqui no blog – as pessoas costumam não comentar os textos dos quais não concordam.

O lema que sigo é “fale mal, mas fale de mim”. Acredito que o blog serve para que todos tenham voz, que interajam. No segundo post deste blog, sobre racismo, uma dificuldade de interpretação de um leitor gerou comentários e réplicas interessantes.

Um comentário permite se conhecer o que o texto tocou a pessoa, que reação ela teve. Nenhum texto passa indiferente. Sempre há algo que chama a atenção, positiva ou negativamente.

Neste blog novo, os comentários chegam mais pelo msn e pelo Orkut que muitas vezes por aqui. Mas o importante, claro, é saber que meus amigos e pessoas que nem conheço andam por aqui.

Vamos comentar minha gente!

Post Nº 20

Os padres não deixam herdeiros

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A Igreja Católica é poderosa em vários países. A riqueza em terras, ouro nos templos e casas paroquiais é imensa. Uma história de mais de 2 mil anos que se mantém hoje apesar da diminuição da fé do povo, ou seja, o mesmo que esclarecimento, e da transferência de fiéis para outras religiões.

Uma vez me falaram que a principal razão para que padres sejam proibidos de se casar e ter filhos tem a ver com o patrimônio da Igreja. Imagine a seguinte situação: o padre se casa com uma mulher, constitui família e tem dois filhos. Se o padre morre, deixa mulher e dois filhos para serem assistidos pela Igreja.

O prejuízo seria grande: um “funcionário” deixou três bocas para alimentar. E o pior: vai que a mulher reivindica parte da igreja local? Apesar de hipotética, a situação poderia ocorrer se o casamento dos padres fosse permitido…

Nada mais inteligente, então, que optar pelo celibato obrigatório. Quem descumpre a ordem, é expulso. A prática resultou, ao longo dos séculos, em relacionamentos sigilosos entre os religiosos e pessoas da comunidade. Muitos vieram à tona. Isso sem falar nos casos de pedofilia, que é doença.

Agora tudo se torna lógico para mim. E para você?

Post Nº 19

Um herói nacional

À primeira vista, a ideia de Pedro Soares é estranha. Em um olhar mais aprofundado, a opinião muda e seria até possível elevá-lo à galeria dos heróis nacionais. Mas por que considerar o ato de Soares heroico?

Vamos à história. Depois de ser traído pela “mulher que mais amava”, em 1982, ele decidiu criar a Associação dos Cornos de Rondônia (Ascron), que tem 5,8 mil associados. A intenção, desde o início, segundo ele, é ajudar pessoas em situação semelhante no Estado e no mundo inteiro.

O nome da Ascron começou a ficar conhecido, segundo Soares, depois que ele apareceu na TV. “Fui recebendo apoio das pessoas que até a Rede Globo me procurou para eu participar do Faustão e Vídeo Show. E hoje sou respeitado e admirado pelo meu trabalho, que fez com que o número de homicídios diminuísse.” Está aí o caráter relevante da biografia de Soares.

De forma bem humorada, a Associação dos Cornos de Rondônia pretende amenizar e oferecer conforto nesse momento doloroso. “Se você foi chifrado, não use métodos de violência, aceite com naturalidade, pois chifre é igual a linha do Equador todo mundo sabe que tem mas ninguém vê.”

Em caso de necessidade, o associado tem à disposição psicólogo, advogado, convênio com cabeleireiro para “dar polimento no chifre” e hospedagem na sede da associação por sete dias (quando o corno resolver sair de casa).

O ato pioneiro de Soares de defender os traídos rendeu repercussão e estimulou a criação de associações similares em estados como Ceará e Paraíba. Atualmente, ele recebe não apenas héteros, mas também gays, uma vez que todos estão suscetíveis a esse mal.

“É Lula de novo com a força dos cornos”

Nas eleições de 2006, o presidente da Ascron, Pedro Soares, ganhou destaque na imprensa ao manifestar apoio à reeleição do presidente Lula. “O presidente da Ascron disse em alto e bom som que os cornos têm tendência em votar no presidente Lula, especialmente porque o perfil humilde dele se adequa às personalidades dos homens e mulheres traídas de Rondônia”, escreveu o jornal O Observador. “É Lula de novo com a força dos cornos”, exaltou.

É ou não um herói nacional?

Link relacionado:
Site da Associação dos Cornos de Rondônia

POST Nº 18

Navegar é preciso – Nº 2

Meus pais sempre falaram que meu nome (grafia estranha) saiu de um personagem da TV. Acho que descobri, finalmente… Esse cara do sul do Tocantins é um sucesso que só agora está sendo descoberto pelo Brasil.

(Este post é histórico. Apesar de ser blogueiro há seis anos, é o primeiro vídeo que posto)

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POST Nº 17

Tic-tac, tic-tac…

Os dias estão passando muito rápido.

Entre o despertar e o dormir existe o mesmo número de horas de sempre, porém elas nunca estiveram tão curtas para se fazer tudo o que precisamos concluir em 24 horas. Isso que a tecnologia nos trouxe inúmeras facilidades: o forno micro-ondas permite esquentar a comida em um minuto, para fazer um litro de suco de laranja basta mistura água e pó, com os automóveis percorremos grandes distâncias em poucos minutos, não precisamos esperar o jornal de amanhã para saber das notícias de hoje…

Agora imagine como era antigamente, quando a comida era feita num fogão a lenha (e ainda tinha que ir cortar a lenha); quando a laranja precisava ser colhida, espremida e misturada com água; quando percorrer 20 quilômetros a cavalo levava horas.

Ao invés de termos mais tempo, em razão da rapidez com que as coisas são feitas e acontecem, temos cada vez menos tempo para aproveitar os momentos com nossos amados, familiares e amigos. Almoçamos rápido (quando almoçamos), trabalhamos em ritmo acelerado (é até difícil conversar com os colegas que estão ao nosso lado o tempo todo) e assimilamos as informações de forma superficial.

E quando chegamos em casa ao fim do dia? Estamos cansados, sem vontade de trocar ideias com ninguém. Ou seja, o momento que temos para estar ao lado de quem gostamos é curto. Isso que muita gente ainda assiste televisão por horas seguidas para se distrair, enquanto a vida vai passando.

É impossível frear o mundo e ficar alheio. O século 21 nos obriga a sermos ágeis, mas podemos aproveitar melhor os dias livres (eles ainda existem) e as horas em que não temos obrigações. Com força de vontade é possível acordar mais cedo para respirar o ar mais frio da manhã, dormir mais cedo, desligar a televisão e ver o que há de bom lá fora, caminhar para prestar atenção a cada detalhe da rua em vez de circular de carro… São medidas simples que podem significar muito e desestressar.

Outra prova de que os dias estão passando muito rápido é que poucos leitores deste blog chegarão até este ponto do texto. No mundo de hoje, textos como este são bastante longos. O tempo, claro, é curto.

POST Nº 16

A primeira vez do Lula

Confesso que fiquei ansioso desde o momento em que falaram que eu acompanharia a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Porto Alegre, em 25 de setembro de 2006. O nervosismo era maior pela obrigação de enviar informações em tempo real ao portal Terra e ainda fotografar o presidente.

Ouvir a fala do Lula, fotografar o Lula e ainda telefonar para a Redação para transmitir as informações em meio a uma multidão de gente e de jornalistas. Esse era a real motivação da preocupação. De ouvido ligado no rádio, parti para o local do comício no centro da cidade.

No local, nunca vi tanto petista junto. A entrada para o gargalo (parte em frente ao palanque oficial) e para a área dos jornalistas era a mesma. Vinte minutos empurrando gente para entrar. O presidente levou mais de duas horas para chegar.

Enquanto os candidatos a deputado enchiam linguiça antes da entrada do personagem principal, testei a câmera: a distância do palanque era tanta que, mesmo com o zoom, a imagem ficava muito aberta. E os colegas fotógrafos, de jornais grandes e inclusive de agências internacionais, estavam com câmeras daquelas que a gente vê na lateral dos campos de futebol.

Lula começou criticando a imprensa, disse que era perseguido, comparou-se a Jesus Cristo. “Se nem Jesus sabia que ia ser traído, como eu poderia?”, referendo-se ao caso do dossiê contra os tucanos. Liguei pro Terra e a informação foi para a manchete da capa: “Lula se compara a Jesus e erra passagem bíblica”. Jesus sabia que Judas iria traí-lo, segundo o evangelho de Mateus…

Liguei mais duas vezes para passar informações. Termina o comício e Lula vai encontrar o povo. Pulo duas cercas metálicas para chegar perto, empurro dezenas de pessoas para também chegar perto do presidente, perco o rádio que estava preso na calça, mas consigo fazer o serviço: várias fotos bem de perto do Lula abraçando o povo.

Prova de que a preocupação é desnecessária. Se for para dar certo, vai dar.

Mais fotos dessa grande cobertura:

FOTOS: Maicon Bock/Terra

POST Nº 15

Navegar é preciso – Nº 1

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Em minhas viagens pelo Brasil por meio da internet, descobri o site da Prefeitura de Coxim (MS), município que fiquei sabendo que existia hoje. Achei interessante esta enquete sobre o novo visual do site. Repare que as opções apresentadas não contemplam a opção ‘Ruim/péssimo’. Colocaram até um ‘Apresentável’ para, talvez, disfarçar a ausência.

Mas também, quem iria achar o site ruim, não é mesmo?

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POST Nº 14

A ira do Exército

Falar sobre os pontos fracos dos militares é comprar briga. Assim como qualquer segmento da sociedade, o Exército registra falhas de conduta que costuma identificar e punir com severidade. Normal para a instituição responsável pela defesa do país.

Em agosto do ano passado, me garantiram que provoquei a ira do Exército ao entrevistar para Zero Hora um militar que revendia ecstasy para os amigos. Na visão dele, sua função era “social”. Na interpretação da Polícia, ele poderia ser enquadrado como traficante. Para o Exército, um duro golpe na imagem.

A reportagem de quatro páginas em uma edição dominical movimentou o setor de Inteligência do Exército, segundo fontes. Desde quando o jornal começou a circular, na tarde de sábado, queriam saber quem era o tal militar que falava sobre a venda de bala, como é chamado o ecstasy.

Militares me contaram que naquele mesmo dia teriam bisbilhotado meu Orkut e até começado a grampear meu celular para saber quem dentro do Exército tinha contato comigo. Não sei se chegaram a tanto, mas perdi amigos militares do Orkut por medo de serem vinculados a tal entrevista, concedida dentro de um carro no estacionamento de um McDonald’s de Porto Alegre. Ah, o cara nunca foi descoberto.

Confira a entrevista completa publicada em 24 de agosto de 2008:

“Minha função é social, apenas compro para os amigos”
Entrevista: traficante de ecstasy

Ele é um jovem de classe média com nível superior. Depois de experimentar a droga pela primeira vez, começou a comprar de traficantes e a revender para os amigos mais próximos. Morador de Porto Alegre e militar do Exército, ele não se classifica como traficante porque consegue os comprimidos de pessoas que buscam grandes quantidades em outros Estados. Para a polícia, porém, o ato de revender para os amigos já configura tráfico. Confira os principais trechos da entrevista concedida a Zero Hora:

Zero Hora – Com quem você consegue o ecstasy?
Traficante
– Com um dos dealers (palavra do inglês que significa negociante, reven-dedor e traficante de drogas) daqui. O traficante de bala não se intitula dessa forma, não gosta de ser chamado de traficante. Ele é o dealer, é o nome bonitinho.

ZH – Mas significa a mesma coisa.
Traficante
– Traficante está envolvido com o crime. O dealer não, ele é um cara popular.

ZH – E ele consegue com quem?
Traficante
– Isso vem da Europa, chega para eles ou no Rio ou em São Paulo a um preço bastante barato, tipo R$ 11 ou R$ 12 cada. Eles vão até São Paulo ou Rio e trazem de avião para Porto Alegre. É o meio mais perigoso, mas como é muito pequeno pode estar num potinho de remédio. Em um pequeno espaço, você consegue trazer uma grande quantidade. No bolso da calça jeans você coloca mil balas sem chamar atenção.

ZH – E quem são eles?
Traficante
– São garotos de classe média, frequentam as festas, usam também. Não há aquele conceito ruim de tráfico de drogas. Não se consideram traficantes.

ZH – Quem usa não consegue mais ir à festa sem usar?
Traficante
– Consegue, você vai fazer festa, mas é outro propósito. Mas não é algo que cria dependência química, você não sente a falta. A dependência é psicológica, você está na festa e pensa: “Putz, essa festa merecia uma bala”.

ZH – Qual foi a maior quantidade que você já comprou?
Traficante
– Umas 12, 14 balas. No meu caso, não tem um fim comercial. Sou um intermediário entre o dealer e o usuário.

ZH – Você compra por quanto e vende por quanto?
Traficante
– Quando compro antes da festa, por R$ 30. Repasso aos amigos pelo mesmo preço. Minha função é social, sou apenas o cara que compra para os amigos. Passo relativamente de graça, nem sempre cobro.

ZH – É uma forma de captar clientes?
Traficante
– Não, não tem essa visão de “ah, vamos viciar o maior número de pessoas que a gente conseguir”.

ZH – Você não recebe nada do dealer?
Traficante
– Não, não tenho participação nenhuma nos lucros dele. Até deveria ter (risos). Ao contrário, você quer que o seu amigo esteja na mesma onda que você, na mesma vibe. Se ele está sem grana, daí você financia ele naquela festa, e numa próxima, não tem problema, ele vai te financiar.

ZH – Você tem ideia de quantas pessoas experimentaram a primeira bala contigo?
Traficante
– (Hesita) Acho que 15 ou 16.

ZH – E o que você acha disso?
Traficante
– Eles são muito agradecidos pela experiência. Não me sinto minimamente culpado. Sinto que foi muito bom para eles também. Não sei por que bala é proibida. Os riscos, para mim, são mínimos. Não vejo a bala como um mal social, vejo o tráfico. O uso é menos danoso do que o do álcool ou o do cigarro.

ZH – Pela sua profissão, que impacto teria se você fosse descoberto?
Traficante
– (Hesita) Seria bastante desagradável porque comprometeria… Enfim… A noção que eu tenho do uso da bala, que é extremamente permissiva, é completamente diferente da noção que a sociedade tem.

FOTO: site Balneário Camboriú

POST Nº 13

O coco do internauta mentiroso

Como informação verdadeira, o e-mail a seguir foi enviado na semana passada à seção de jornalismo participativo de um portal de internet:

Hipótese indica que água de coco pode ser na verdade uma água comum alterada

Algo extraordinário pode ser verdade: a água do coco vem da água comum. É o que diz a pesquisa do ICN (Instituto de Pesquisas de Cocos do Nordeste) feita desde o início de 2007 até fevereiro deste ano.

Cerca de 50 profissionais realizaram pesquisas, experimentos e formularam hipóteses. No final, a conclusão foi de que realmente a água do coco vem da água normal. “O coqueiro absorve a água comum das chuvas ou também quando são molhados e daí dentro dele passam por uma série de modificações tendo substâncias inseridas até se formar o fruto, no caso o coco”, disse a coordenadora da pesquisa, Rosângela de Abreu.

A hipótese não é totalmente considerada verdeira (sic), ainda, porém, será levada a profissionais do Brasil todo para poder ser confirmada.

Com exceção do tropeço na palavra “verdadeira”, o texto é bem escrito e segue padrões jornalísticos. A contribuição, assinada com nome falso, chamou a atenção dos editores do portal e, claro, não passou no processo de checagem feito com tudo que chega.

O ICN não existe, muito menos a tal “cocóloga” Rosângela de Abreu. O e-mail foi um dos milhares deletados desde que os principais sites adotaram um novo modelo de jornalismo, chamado de jornalismo cidadão, participativo, colaborativo ou amador. Os principais portais brasileiros, como Terra, IG e G1, abrem espaço para a participação dos internautas.

Acessível a qualquer internauta

Qualquer pessoa, do Brasil ou do Exterior, pode enviar informações sobre acidentes, incêndios, assaltos, shows e fenômenos meteorológicos. Cada site estipula suas regras próprias, mas normalmente a seção de participação do internauta é menos rígida que o restante do conteúdo.

Por ser mais flexível, esses canais publicam “notícias” como o cão atacado por um ouriço, a artesã que personaliza sandálias Havaianas e o “flagrante” da protuberante barriga do ator Lima Duarte.

Esse modelo de jornalismo recebe críticas. Alguns consideram que o que existe é apenas o aproveitamento comercial de material gratuito enviado por internautas. É barato fazer “reportagens” tendo como base fotos, vídeos e relatos enviados por alguém que não terá direito a receber nada por isso (antes de enviar, o internauta precisa aceitar termo em que se compromete a ceder o material).

O modelo também seria suscetível à participação de ativistas de diferentes ideologias, que acabariam com a (comprovadamente inexistente) objetividade jornalística.

Na minha opinião, o jornalismo participativo tem o grande mérito de democratizar a informação. Por exemplo, quando a mídia nacional se preocuparia com a possibilidade de cheia de um rio em Ji-Paraná (RO)? E quando daria importância para uma colisão de trânsito com um ferido em Pontes e Lacerda (MT)? E quando publicaria algo sobre um campeonato de canoas em Bombinhas (SC)?

Moradores dessas cidades veem pouco seus acontecimentos em reportagens nacionais. E continuariam não se vendo se não fossem por meio dos portais e sites de notícias.

Para quem recebe e publica, a informação pode ser valiosa e uma forma barata de fazer jornalismo. Para quem envia e vê publicada sua notícia, o sentimento é de estar participando ativamente do mundo.

E qual a sua opinião sobre o jornalismo participativo?

FOTO: Praia da Claridade

Links relacionados:
vc repórter – Terra
VC no G1
Minha Notícia – IG

POST Nº 12

Um braço faz toda a diferença

Pode não parecer, mas este post é sobre jornalismo investigativo. Ou pretende ser.

No verão de 2008, estava na sucursal de praia do Correio do Povo quando uma mensagem anônima chegou no celular do jornal, divulgado todos os dias na página de verão. Dizia que um micro-ônibus da Prefeitura de São Sebastião do Caí (RS) estava levando veranistas até a praia. Tudo com dinheiro público.

A denúncia ainda dava o endereço, na praia de Santa Terezinha, em Imbé. Estávamos a menos de 10 km de lá. Foi difícil convencer o fotógrafo Diego Vara, o motorista Sérgio Negrini e o repórter Samuel Vettori, da Rádio Guaíba, a abandonarem o futebol de sábado à tarde e a piscina do hotel para me ajudar a conferir se a história era real.

Eu, por outro lado, estava excitado com a história. “Veículo da prefeitura leva prefeito e família à praia”, “Denúncia exclusiva: farra com o dinheiro público”, eu já imaginava na manchete do dia seguinte.

Depois de uma certa insistência, fomos ao tal endereço. Não havia ônibus algum. Por telefone, o informante contou que o micro-ônibus tinha acabado de sair. No dia seguinte, um domingo, a fonte volta a ligar: “O micro-ônibus está aqui agora. Estão se preparando para sair de novo, são umas 15 pessoas”.

Corremos para lá com o carro da reportagem. Para chamar menos a atenção, fomos apenas no carro do jornal, embandeirado. Ou seja, com a identificação completa de “Reportagem”. O carro da rádio ficou no hotel. Tentamos avisar a TV Record, também do grupo, mas não conseguimos.

O micro-ônibus

Agora, de fato, o micro-ônibus estava lá, estacionado em frente a uma casa localizada a umas seis quadras do mar. Éramos cinco no carro. Além dos já citados, estava no carro mais o motorista Tiago Belinski, da Rádio Guaíba. Foi só para acompanhar.

Aqui cabe um adendo: adorávamos pegar no pé no Tiago, que dizia que estava rodando mais de 500 km por dia na praia em busca de notícia. Nós, do Correio do povo, rodávamos um terço disso, o que dava margem para comentários do tipo: “Tiago, duas voltas ao mundo no verão gaúcho” ou algo do tipo. Fecha o adendo.

Ao se aproximar do micro-ônibus, não queríamos ser reconhecidos como jornalistas. Sentado no banco traseiro, o Tiago, por sua vez, estava elétrico e não deixava o braço direito dentro do carro. Daí pedi a ele: “Bota esse braço pra dentro, cara. Vão nos identificar!”. Bastou para gargalhadas tomarem conta do carro. E o Negrini completou: “O carro tá todo embandeirado, mas o braço é que vai nos denunciar”. Mais risadas.

O clima era de descontração total, mas eu estava nervoso. Parecia que ninguém estava levando a sério a denúncia. Mas não é que, mesmo sem carro discreto disponível, a coisa deu certo. De longe, o fotógrafo Diego Vara conseguiu fazer imagens de umas dez pessoas entrando no veículo da Secretaria de Educação com roupas de banho e camisas de futebol.

Seguimos o veículo até as areias de Tramandaí, a uns 15 km de distância. Lá, o grupo desembarcou. Eram jogadores de São Sebastião do Caí que representariam o município no Bolamar, a mais famosa competição de futebol de areia do litoral gaúcho. A prefeitura estava cedendo o transporte. No local, havia mais uma van.

Por telefone, uma fonte do Ministério Público confirmou que a prática era ilegal, apesar de ser comum em qualquer cidade. Ainda mais em ano eleitoral. Bastou para comprovar a denúncia. Naquele dia, o prefeito e secretária de Esporte sumiram. Ninguém queria falar sobre o transporte de jogadores para a praia. Normal.

Nada no jornal

Fiz a matéria e enviei ao jornal. No dia seguinte, nada. Nenhuma informação sobre o porquê de não terem dado. À noite, falo por telefone com o Eugenio Bortolon, responsável pela capa. Ele explica que não poderia dar sem o contraponto da prefeitura.

“Mas Eugenio, tentei ligar mais de 20 vezes, o prefeito sabe que quero falar com ele, mas ele não quer atender!”, expliquei. “Tá, guri, coloca isso no texto, que vou publicar. Vou dar assinada e amanhã tu procura eles, tá?”, disse ele. Respondi: “Nem vou precisar, amanhã eles vão me procurar”.

Dito e Feito. O jornal noticiou numa terça-feira, no alto da página 3: “Transporte de equipe é investigado”. Por volta das 12h, o então prefeito de São Sebastião do Caí, Léo Alberto Klein, me liga no celular, todo cheio de dedos, pedindo desculpas por não ter me atendido anteriormente. No oitavo ano de governo, disse que não havia nada de eleitoreiro no empréstimo, até por não poder disputar o terceiro mandato.

No dia em que saiu a matéria, o Ministério Público abriu investigação para apurar as denúncias. Posteriormente, não segui acompanhando o caso pois acabaria trocando o Correio do Povo pela Zero Hora. O processo teria sido arquivado sem punições.

FOTO: Diego Vara

Links relacionados:
Transporte de equipe é investigado (em PDF, selecionar a página 3)
MP investiga uso de veículos por prefeitura (em PDF, selecionar a página 3)

POST Nº 10

A sorte no jornalismo

Estar no local certo na hora certa garante boas imagens para os fotógrafos dos jornais. Para os repórteres, conseguir uma informação importante também é uma questão de sorte, às vezes.

No fim da tarde de 31 de janeiro de 2007, eu fechava a página de praia do Correio do Povo em Imbé, no litoral gaúcho, quando chegou a informação de que a Polícia Civil havia prendido uma quadrilha perigosa a um quilômetro do hotel em que estávamos.

Fomos ao local e pegamos as informações, assim como todos os veículos de comunicação que estavam no litoral. Durante a ação, porém, a mulher que era caseira do imóvel onde que o bando foi preso passou mal e foi socorrida.

Atento a tudo ao seu redor, o repórter fotográfico Eduardo Seidl fotografou ela nos braços de policiais (foto acima). Na sequência, cada equipe de reportagem seguiu para seu lado. Nós também. Por volta das 22h, o motorista do jornal Sérgio Negrini, também sempre atento, passa no posto de saúde das proximidades e descobre que a mulher tinha morrido de infarto.

De lá, ele me liga avisando. “Tu tá sabendo que a caseira morreu?”, pergunta. Respondo que não sabia de nada, mas que iria consultar o delegado responsável pela ação. Ao ligar para ele, fico sabendo que a informação era quente.

Intuindo que somente nós sabíamos da informação, omiti a informação do meu colega Amilton Belmonte, da Rádio Guaíba, hoje assessor da Secretaria de Segurança Pública. Se ele desse na rádio, todos os concorrentes saberiam. Além de guardar a informação, peço para o fotógrafo enviar as fotos da mulher para o jornal. Para finalizar, altero meu texto, dando destaque à morte durante a ação policial.

O resultado no dia seguinte? Só o Correio do Povo falava da morte da mulher e trazia foto dela sendo socorrida. Os demais jornais falavam apenas da ação, ignorando a morte. Azar da senhora, elogios da Redação.

FOTO: Eduardo Seidl